Minha história com Minecraft: infância, versões piratas e as lições que ficaram

Minha história com Minecraft começou antes de eu perceber

Desde que eu me lembro como uma “gentinha”, eu conheço Minecraft. É como se eu tivesse saído do útero da minha mãe segurando um celular com um vídeo do Jazzghost de um lado… e um PC rodando o jogo do outro. Eu sei, parece exagero, mas é porque memória de infância tem esse jeito: ela não vem em linha reta, ela vem em cena. E Minecraft, pra mim, sempre foi cena.

Só que tem um detalhe: eu cresci numa família mais conservadora e desconfiada com tecnologia. Não era maldade. Era cuidado. Era aquele medo clássico de “isso aí vai viciar”, “isso aí é perigoso”, “isso aí não presta”, “isso aí estraga a cabeça”. Então, obviamente, meus pais nunca me deram dinheiro pra comprar esse joguinho que, na minha cabeça, era tipo um portal mágico.

E quando uma criança quer muito uma coisa e não tem como ter… ela vira especialista em dar um jeito.


Minha história com Minecraft e o jeito que eu aprendi a “me virar”

Então eu passei minha infância inteira explorando versões piratas.

E quando eu digo “explorando”, não é aquele explorar fofo de aventureira com mochila e mapa. É explorar no modo “isso aqui vai abrir mesmo ou meu PC vai pegar fogo?”. Eu já joguei cópias de Minecraft tão duvidosas que eu nem sei se eu tava baixando um jogo ou assinando um pacto.

Teve versão que parecia Minecraft só de longe. Teve versão que tinha uns gráficos tão… sugestivos… que dependendo do ângulo você precisava de imaginação pra entender onde terminava o bloco e onde começava a textura toda estourada.

E teve as versões mais bizarras, que pareciam ter sido feitas por alguém que ouviu falar do jogo numa conversa aleatória e decidiu criar um “Minecraft do multiverso”: tinha cópia em que você conseguia ter vários namorados quadrados ao mesmo tempo e ainda cuidar de bichinhos, tipo ursos e gatinhos, como se fosse um sandbox misturado com novela e pet shop. Eu juro. E o mais engraçado é que, na época, eu nem questionava tanto, porque eu só queria entrar naquele mundo de cubos de algum jeito.

Se eu olho hoje, eu rio. Mas na hora era sério: era o meu jeito de participar.

E isso já diz bastante sobre minha história com Minecraft: eu não precisava do perfeito, eu precisava do possível.


Minha história com Minecraft no criativo: casinhas, vilas e “medo de morrer”

Eu sempre fui uma criança bem criativa no jogo. Eu era do time das casinhas. Das vilas. Das construções que começam pequenas e, quando você vê, já viraram um castelo com torre, varanda, sala secreta, jardim e uma ideia totalmente desnecessária que só faz sentido na cabeça de quem tá construindo.

E ao mesmo tempo… eu tinha pavor do survival.

Medo real. Medo de morrer e perder tudo. Medo de lutar pra conseguir item e, num vacilo, o jogo me humilhar e eu ficar olhando pra tela com aquela sensação de “pra quê eu fui inventar moda?”. Eu sei que muita gente ama o survival justamente por causa do risco. Só que eu, na infância, era do tipo que queria controle. E o survival não combina com controle. Ele combina com coragem, insistência e aquele “vai dar certo” que você só descobre depois que dá errado umas dez vezes.

Então eu ficava no criativo. E o criativo, pra mim, tinha um efeito colateral: o loop.

Eu entrava no jogo, jogava uns três dias seguidos, construía coisas que eu achava magníficas… e quando terminava, meu ânimo desaparecia. Porque, depois que a construção tá pronta, bate aquele vazio estranho: “ok… tá bonito… e agora?”. Aí eu enjoava, sumia por meses, e depois voltava do nada como se nada tivesse acontecido.

Eu podia sim fazer construções incríveis. Mas eu ainda não sabia aproveitar a parte mais viva do jogo: a história que acontece enquanto você joga.


Minha história com Minecraft e a parte que mais doeu: jogar com amigos

Mesmo sendo o jogo que marcou minha história de infância, eu também sinto que não consegui aproveitar do máximo da maneira “certa”. E quando eu falo “certa”, não é como se existisse um manual oficial de como jogar. É “certa” no sentido de… completa. Com memória compartilhada. Com momentos que viram piada interna. Com aquela bagunça boa que só existe quando tem mais de uma pessoa vivendo a mesma coisa.

Por crescer numa família mais conservadora, eu nunca consegui jogar muito com coleguinhas. Isso me impediu muito de criar memórias.

Enquanto a mini eu queria construir uma vila do zero, fazer uma base absurda, criar várias construções incríveis, matar vários mobs e principalmente matar o tão sonhado Ender Dragon junto com amigos… eu ficava presa na realidade do “não dá”. O máximo que eu conseguia era meia hora de chamada com um colega.

E mesmo nessa meia hora, eu me privava demais. Eu diminuía a minha animação. Eu escondia a minha essência. Eu ficava com medo de meus pais perceberem a “verdadeira eu”, aquela versão mais solta, mais feliz, mais empolgada.

Hoje eu consigo ver que pode ter sido preocupação deles — e com certeza foi. Mas eu também vejo o quanto isso me prejudicou na hora de criar memórias incríveis com o jogo. Porque tem coisa que você não consegue viver sozinha do mesmo jeito.

Você até pode construir uma mansão sozinha.
Mas você não cria as mesmas histórias sozinha.


Minha história com Minecraft no YouTube: quando eu “jogava assistindo”

E aí entra uma parte que muita gente que teve infância parecida vai entender: quando você não tem meios pra jogar como queria — seja por falta de PC, falta de dinheiro, falta de liberdade, falta de tudo — você acaba acompanhando outras pessoas jogando “por você”.

Eu segui e acompanhei várias sagas de Minecraft diferentes, e cada uma me ensinou lições. Eu acompanhei até os 100 episódios a saga do Felipe Neto, vi vários vídeos do Jazzghost e diria que vi praticamente todos os vídeos do T3ddy (naquele tempo, uns 6 ou 7 anos atrás). Tenho certeza que teve mais youtubers, mas os que eu lembro com nitidez são esses.

E sim: isso me ensinou coisa de verdade.

Do T3ddy, eu aprendi o que é humildade, muito pelo jeito dele em lives, pelo jeito de falar, pelo jeito de ser “gente” mesmo com público. Do Felipe Neto… eu aprendi o que é hipocrisia — porque crescer também é perceber contradição, comparar discurso com atitude e entender que nem todo ídolo é exemplo em tudo.

Muita gente olha pra isso e pensa “ah, só vídeo”. Só que, pra mim, foi companhia. Foi pertencimento. Foi ter a sensação de estar participando do mundo do jogo, mesmo sem ter o cenário perfeito dentro de casa.

E é por isso que minha história com Minecraft não é só sobre jogar. É sobre acompanhar. É sobre querer. É sobre se sentir parte.


Minha história com Minecraft e o “não” que virou aprendizado

Então, como eu disse, Minecraft pode não ter sido o jogo em que eu joguei com toda minha força na infância… mas foi o jogo que marcou ela inteira.

Eu posso nunca ter zerado o Ender Dragon com um colega.
Mas eu já vi incontáveis “amigos” zerando pra mim no YouTube.

Eu posso não ter tido liberdade pra passar horas em call, rindo, fazendo bagunça, construindo junto.
Mas eu tive aquele sentimento de “um dia eu vou conseguir”. E esse sentimento, por mais simples que pareça, segura a gente de um jeito engraçado.

Porque a criança não sabe dizer “isso é uma limitação social e familiar”. A criança só sente. Ela sente vontade. Sente falta. Sente medo. Sente esperança. E vai juntando tudo isso como se fosse item raro no inventário.


Minha história com Minecraft hoje: eu não me arrependo de nada

E hoje, mais velha, com mais capacidade de entender e observar as coisas, eu não me arrependo de nada do que vivi. Eu viveria cada hora novamente.

Eu não me arrependo de cada vídeo magnífico que eu vi e que me ensinou alguma coisa que eu carrego até hoje. Eu não me arrependo de cada morte no survival (mesmo sentindo muita tristeza pelos itens na época, porque sim, eu sofria mesmo). Eu não me arrependo de cada versão pirata duvidosa que eu joguei. E eu não me arrependo nem do que foi ruim.

Porque, no fundo, tanto as coisas boas — como passar horas construindo mansões que eu achava incríveis — quanto as coisas ruins — como não poder jogar com amigos — me ensinaram lições grandes demais pra uma “mini eu”.

Eu aprendi a valorizar o que eu tenho.
Eu aprendi a criar com pouco.
Eu aprendi a me virar.
Eu aprendi a observar.
Eu aprendi a engolir o “não” sem deixar ele me destruir.

E isso é muito mais profundo do que parece.

Às vezes, a gente cresce achando que infância perfeita é infância sem frustração. Mas a verdade é que frustração também educa, só que do jeito mais chato possível. Ela ensina você a ter paciência. Ensina você a esperar a hora. Ensina você a entender seus pais (mesmo discordando). Ensina você a olhar pra trás e enxergar que nem tudo foi castigo… às vezes foi proteção.


Minha história com Minecraft e um recado pra você, leitor

É isso, meu caro leitor.

Pra cada acontecimento que for acontecer na sua vida, tenta sentir gratidão pelas lições que você tá aprendendo. Sim, podem ser lições ruins. Podem ser lições que te derrubaram. Podem ser lições que pareceram existir só pra te afundar.

Mas existe uma gratidão que não é fingir que doeu menos. É a gratidão por perceber, por acordar, por enxergar o erro, por ter a chance de consertar, por ter vivido o suficiente pra entender.

Porque quando você entende… você muda.

E, na moral? Eu acho gratificante imaginar que tem crianças vivendo o que eu vivi agora. E eu espero que, quando crescerem, elas não se vitimizem pelo passado. Eu espero que elas sintam felicidade por terem se tornado quem são. Porque, às vezes, você não escolhe a fase difícil… mas você escolhe o que faz com ela depois.

E eu gosto de pensar assim: se você joga coisas boas pro mundo, o mundo tende a devolver coisas boas. Nem sempre do jeito que você quer, nem sempre na hora que você quer… mas devolver. Porque a vida tem dessas: ela testa a gente, e depois recompensa quem não desistiu de ser bom.

E essa é, no fim, a parte mais verdadeira da minha história com Minecraft: não é só sobre um jogo. É sobre crescer, aprender, e continuar.

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